Projeto monitora microrganismos resistentes a antibióticos nos rios amazônicos

Por Rafael Arcanjo

Segundo dados do Boletim Epidemiológico N° 55, publicado no início de 2024 pelo Ministério da Saúde, de 2015 a 2022, o estado do Pará registrou 1.256 casos isolados de infecção por microrganismos resistentes a antibióticos. Por isso mesmo, o monitoramento da presença desse tipo de organismo, classificado como RAM – Resistência aos Antimicrobianos, nos corpos d’água do Pará é fundamental. Este é o objetivo do projeto “Monitoramento de rios da Amazônia quanto a multirresistência a antimicrobianos”, coordenado pelo Prof. Dr. Rommel Ramos, do Laboratório de Simulação e Biologia Computacional, do Centro de Computação de Alto Desempenho e Inteligência Artificial; e do Laboratório de Bioinformática e Genômica de Microrganismos – LBGM, do Instituto de Ciências Biológicas, ambos da Universidade Federal do Pará.

A iniciativa começou no final do ano de 2021 e conta com financiamento da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Profissional e Tecnológica do Pará, a Sectet. O ponto de partida para a pesquisa surgiu dos protocolos sanitários envolvendo o uso de antibióticos para o tratamento da Covid-19, durante a pandemia. A pressão seletiva causada pelo ser humano, por exemplo, ao descartar irregularmente um antibiótico, seja no lixo comum ou jogando na pia ou no vaso sanitário, pode facilitar para microrganismos adquirirem resistência a esse tipo de medicamento.

Segundo o professor Rommel Ramos, os dados da coleta de água dos rios podem ajudar a monitorar microrganismos que podem estar relacionados a infecções em humanos e animais das mais diversas. Ao realizar a coleta em um determinado ponto de um rio, os integrantes do projeto encontraram a presença de microrganismos resistentes, e perceberam que, naquele ponto, as pessoas usam a água de diferentes maneiras, pois não sabem da contaminação. A partir da análise feita pelo projeto, se tem informação suficiente para identificar a contaminação e orientar a população sobre o uso da água.

“Às vezes a gente coleta numa área, onde as pessoas usam essa água para várias finalidades, e a gente percebia que muitas bactérias, capazes de infectar as pessoas, que identificamos como multirresistentes, estavam presentes nessas águas, e as pessoas estavam em contato. E o que isso quer dizer? Essas pessoas podem ser acometidas por doenças que não sabem nem a origem, porque não sabem como está a qualidade da água”, explica o professor.

As análises do projeto foram realizadas em quatro municípios paraenses: Bragança, Marabá, Paragominas e Altamira A partir dos resultados, o objetivo do monitoramento passa a ser procurar e apontar a possível causa da contaminação ou da proliferação dos micróbios resistentes, para no final atingir positivamente a saúde humana e animal da região, através das ações do governo baseadas nos resultados deste tipo de pesquisa aplicada. Haverá, no futuro, uma série de análises na Região Metropolitana de Belém, incluindo a região das ilhas. 

A iniciativa conta também com participação de diferentes instituições do Ensino Superior no Brasil, como a Universidade Federal Rural do Pará – UFRA, a Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará – IFPA, e a Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.

Por que esse tipo de microrganismo é um perigo à Saúde Pública?

Por terem ou adquirirem certa resistência à boa parte das medicações conhecidas, esse tipo de microrganismo – fungos, parasitas, vírus ou bactérias – representa um perigo grave à saúde humana. Esses micróbios são difíceis de serem tratados pela medicina na atualidade justamente por resistirem a maioria dos medicamentos conhecidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a OMS, a RAM é um dos maiores desafios da saúde global hoje.

O uso indiscriminado de remédios e/ou o seu descarte irregular podem acarretar em RAM, por isso é importante não se automedicar, especialmente com remédios da ordem dos antibióticos; e descartá-los em locais adequados. Por exemplo, se uma pessoa descarta um comprimido antibiótico no vaso sanitário e dá descarga, ele se dilui e acaba na rede de esgoto. Ao chegar nesse ambiente, o medicamento, em pequena quantidade, pode ajudar na evolução dos microrganismos, tornando-os resistentes. 

De acordo com a Lista de Patógenos Bacterianos Prioritários de 2024, a BBPL (sigla em inglês), organizada pela OMS, atualmente 15 famílias de bactérias são reconhecidas como resistentes. Elas estão agrupadas em grupos de prioridade crítica, alta ou média. No segundo grupo estão classificados alguns patógenos conhecidos, como a Salmonela e a Pseudomonas aeruginosa, responsável por infecções hospitalares em pacientes.

Um leque de possibilidades

O projeto tem a capacidade de diversas aplicações a partir da análise, do sequenciamento genético dos microrganismos presentes na água e do uso de inteligência artificial para identificar padrões nos dados que possam indicar risco à saúde. Além de poder identificar os patógenos de uma determinada área, a iniciativa também realiza trabalhos de identificação de genes com potencial de biorremediação, isto é, capacidade de corrigir ou amenizar alguma contaminação no rio; identificação de bacteriófagos, uma família de vírus especializados em infectar bactérias, específicos da flora intestinal e que podem servir como marcadores de poluição fecal. 

A identificação desses micróbios antecipadamente permite o manejo adequado por produtores que utilizam águas de rios ou outros cursos d’água, e ajuda também a amenizar as perdas financeiras da indústria de piscicultura, por exemplo, especialmente quando a água bombeada para os viveiros dos peixes vem de rios contaminados. De acordo com o professor Rommel, ao conversar com piscicultores nas regiões de coleta, eles relatam eventos de mortandade dos peixes associadas a infecções fúngicas, mas que agora sabe-se que pode ter participação de outros microrganismos. 

CCAD-IA na Mídia!

O Centro Paraense de Computação de Alto Desempenho e Inteligência Artificial — CCAD-IA apoiou a pesquisa feita pelos pesquisadores Vinicius Abreu (Faculdade de Computação/UFPA) e Alessandro Varani (Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias/Unesp), que sequenciou o genoma do cupuaçu.